Ontem (20 jul), o Papa encontrou os jornalistas em Les Combes, e disse que o terrorismo é irracional e que no mundo não está em curso um confronto de civilização.Pois o Papa Ratzinger está duplamente enganado. Como o estão os líderes ocidentais que, como se viu pelos referendos à Europa, se mostram incapazes de perceber sequer os seus povos, tão interessados que estiveram em "guiá-los" e "manobrá-los".
O terrorismo não é irracional. Porquê? Porque tem razões. Tem causas e tem culpados.
Mas ninguem parece interessado com as causas. E porquê?
Porque são mais complexas e menos absolvedoras do Ocidente do que este está disposto a admitir.
Porque é mais fácil e mobilizador o medo e a ignorância.
Porque o medo é uma oportunidade para um real ataque à liberdade individual e uma oportunidade para o Poder se proteger das ameaças que resultam da forma injusta como ele é exercido.
O Terrorismo é um confronto de civilizações sim. Não de civilizações clássicas, mas de Civilizações Económicas e de Valores. É por isso qua a ameaça pode estar em qualquer lado, em cada esquina no Ocidente. Porque os factores propulsores do terrorismo não estão apenas nos paises origem dos terroristas mas essencialmente no Ocidente.
Uma sociedade Árabe poderá aos olhos ocidentais ser extremamente injusta e desigual, mas era culturalmente estável sem "apelos" externos.
O Ocidente ao veicular os valores da concorrência, da Justiça, das igualdade de oportunidades, deveria ter tido o cuidado de actuar com base neles e não de forma hipócrita, explorando os recursos e a força de trabalho interna e externa, de formas elas próprias injustas e desiguais.
Se podemos admitir que o Terrorismo é um fenómeno que congrega vontades muito díspares ele está, quer seja politicamente correcto ou não dize-lo, baseado num sentimento de injustiça e de impotência. O desespero, a ignorância e o ódio estão mais do que nunca mobilizaveis para formas anti-humanas de praticar guerras em que os interesses dos que mandam são diferentes dos que a praticam no terreno.
Eu compreendo a preocupação dos detentores do Poder com a segurança, pois acho que eles já estão cientes que a não mudar a política das potências ocidentais (e nada faz crer nisso) os terroristas deixarão de ser essencialmente árabes para passarem a ser seres de qualquer raça e credo, cuja vida se tornou tão dura ou insignificante, cujo sentimento de injustiça é tão forte (claro que teimaremos em chamar-lhe loucura) que a única forma de darem valor à vida é através da forma como morrem.
A maior trajédia é que quem sofre são pessoas inocentes. Sim. Porque também há pessoas culpadas, quando há uma guerra.
Este mundo faz-me pensar o que andará à frente: se a realidade se a ficção.
No entanto, para o Cristianismo o Terrorismo é ainda mais desmoronador. Como lida uma religião que alicerçou séculos de fé no sacrifício de Jesus Cristo (que dá a vida por nós, estando inocente, para provar o seu Amor) com a banalização do sacrifício da vida?
Neste jogo o Cristianismo perde sempre:
Porque o sacrifício de Jesus Cristo já não é suficientemente mobilizador;
Porque a prática cristã conduziu o mundo à guerra e à injustiça não menos que outras religiões;
Porque a Vida hoje tem acima dela uma Consciência. E essa Consciência pode achar que a Vida é um sacrifício maior que a Morte;