nada de nada. tudo de tudo. o som do nada, o grito do tudo.

Monday, July 25, 2005

Os Vampiros da Democracia I

É verdade. Nasci depois do 25 de Abril. Mas estudei a lição. Livros. Entrevistas. Debates. Opiniões.

E a verdade é que me sinto enganado. Como muito bom português se sentiria se parasse para pensar num intervalo nas compras ou na conversa sobre futebol ou sobre o quanto sofre com a crise.

Olho para trás e vejo que "eles" substituiram um regime que não os servia por um de que se servem. Olho e vejo uma oportunidade perdida, um fracasso social que nos levará à extinção como Nação.

Não me orgulho do País que criaram e controlam : não me alivia que tendo liberdade para falar, tal de nada me sirva. Porque o valor não está mais em poder falar mas em ser ouvido e respeitado.

Não me orgulha poder concorrer a um emprego se já sei que há partida esse emprego não será provido com base no mérito, competência e empenhamento, pois o que a democracia faz é criar uma capa de legitimidade para as mesmas acções do Poder.

Não me orgulha viver num País onde sabemos o que está mal, onde até sabemos como fazer, mas onde elegemos precisamente aqueles que nada pretendem alterar.

Não me orgulha saber que os pais e padrastos da Democracia portuguesa não são democratas sequer com os seus jovens, limitando-lhes as oportunidades, hipotecando-lhes o nível de vida futura e tratando-os como pessoas fora do sistema que nada lhe trazem de útil a não ser que se convertam aos vícios que os alimentam...

Claro que fazem o papel de santos, dizendo que os jovens se abstêm. Pois claro que se abstêm. Ou o fazem voluntariamente para terem direito à sua parte da refeição...ou se abstêm involuntariamente falando para um microfone sem som. Nem sei se ainda existem os segundos.

Os vírus são inteligentes. Porque aprendem. Porque se adaptam. É isso que o regime político faz : evolui, adapta-se. Mas o Pão e o Circo não desapareceram, apenas mudaram de roupas; a ignorância existe mas parece apenas desinteresse; os leões esses continuam insaciáveis mas sorriem; os outros figurantes sabeis onde andam...

É por isso que não serei ingénuo com o 25 de Abril como não o serei com o dia de hoje. É por isso que não preciso de ter vivido mais do que o que já vivi para sentir que os Vampiros do Zeca são imortais: no Império Romano, na Idade Média, no Estado Novo, na Democracia.

Porque os Vampiros estão em nós e no meio de nós.

Porque são ao mesmo tempo odiosos e fascinantes.

Porque são humanos.

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada


(Vampiros - Zeca Afonso)

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